
O som de tiros de metralhadora ecoava pelos edifícios em colapso enquanto as crianças exploravam ansiosamente as ruas devastadas de Nanquim na década de 1930, encantadas por visitar o set de rodagens de um filme chinês sobre um massacre histórico que está a ser um grande sucesso comercial nos cinemas.
Com uma produção primorosa e um elenco de estrelas, o drama histórico "Dead to Rights" passa-se em Nanquim, então capital da China, durante as seis semanas de assassinatos em massa, violações e pilhagens por parte do exército japonês em 1937, que mataram dezenas ou mesmo centenas de milhares de pessoas.
Tal como outros filmes sobre o massacre, "Dead to Rights" não hesita em retratar as atrocidades, mas isso não desmotivou os espectadores. O filme está no topo das bilheteiras chinesas desde o final de julho.
O set, que está num parque cinematográfico nos subúrbios de Xangai, está agora aberto ao público e estava cheio de fãs entusiasmados — muitos deles crianças — quando a agência France-Presse (AFP) o visitou esta semana.

Um enorme mural do antigo líder chinês Chiang Kai-shek, crivado de balas, a olhar de cima num edifício bombardeado, enquanto os visitantes entravam, tirando 'selfies' e fazendo vídeos em direto com entusiasmo.
Para lá da leviandade, o filme provocou emoções fortes.
"É uma dor profunda que vem de dentro, um sentimento de ódio profundo", disse uma mulher de apelido He, descrevendo os seus sentimentos em relação ao Japão.
"A História é algo que não pode ser apagada do coração, aconteça o que acontecer no futuro."
Um homem contou à AFP que viajou quase dois mil quilómetros desde o norte de Ningxia com o filho de cinco anos, que assistiu ao filme.
Outro rapaz, a segur uma bandeira chinesa, fez uma pose triunfante num monte carbonizado de escombros e pedaços de vidro, enquanto os pais lhe tiravam fotografias contra o céu azul do verão.
Atiçar o sentimento anti-japonês?

O enredo de "Dead to Rights" gira à volta de um grupo de habitantes de Nanquim, escondidos num estúdio de fotografia, obrigados a revelar fotografias japonesas como "souvenirs" de crimes de guerra.
Uma crítica do jornal South China Morning Post considerou o filme "extremamente poderoso", mas disse que algumas cenas violentas eram "como se tivessem sido engendradas para atiçar o sentimento anti-japonês".
O filme é um dos vários lançamentos de verão sobre a guerra com o Japão, que matou milhões de chineses e em que muitos acreditam que Tóquio nunca se redimiu devidamente.
O país prepara-se para um grande desfile militar na próxima semana para assinalar os 80 anos da derrota do Japão e o fim da Segunda Guerra Mundial.

O cartaz de "Dead to Rights" diz: "Nenhum chinês jamais esquecerá."
"Não creio que [filmes como este] representem ódio. É porque precisamos de restaurar a história", disse Jiang Xiang, um visitante de 37 anos.
O número de mortos no massacre — os chineses estimaram-no em 300 mil — continua a ser motivo de debate, e alguns ultraconservadores japoneses negaram que tenha ocorrido, apesar das provas internacionais contundentes.
Jiang disse que a consciencialização sobre o sofrimento da China deve ser transmitida de geração em geração — para ensinar que "precisamos de confiar em nós próprios e continuar a fortalecer-nos".
"Compreender a história"

No estúdio fotográfico do set, um livro de visitas estava recheado de comentários patrióticos e profanos.
"O Japão é o país mais estúpido do mundo", dizia um deles num rabisco infantil.
Quase todos os pais que a AFP encontrou disseram que os seus filhos viram o filme, com uma mãe de Nanquim a afirmar que a escola os incentivou.
A China não possui um sistema de classificação indicativa de filmes, e não é invulgar que as crianças assistam a conteúdos que possam ser considerados excessivamente violentos noutros países.
"Olha, era ali que a cabeça estava pendurada [no filme]!", riu-se uma criança para um amigo ao passarem por um poste de madeira.
A turista He disse que os filmes de guerra "ensinam às crianças como os nossos antepassados lutaram por nós".
O objetivo era ajudar "as crianças a compreender a história — não as fazer odiar nem nada do género".
A aluna da escola primária Li Xinyi disse que achava os japoneses "antipáticos", mas alertou contra a amargura.
"Mesmo que nos tenham feito muitas coisas cruéis, ainda precisamos de os respeitar, porque agora precisamos de nos concentrar na paz."
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