
A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas responsável pelos Óscares marcou uma reunião urgente do seu Conselho de Governadores para esta sexta-feira às 11h00 de Los Angeles (18h00 em Lisboa), revelou o meio especializado Deadline.
O tema: a crise provocada pela sua resposta à detenção e agressão na Cisjordânia do palestiniano Hamdan Ballal, um dos realizadores de "No Other Lan", premiado com o Óscar de Melhor Documentário na cerimónia de 2 de março.
Uma nova carta aberta na quinta-feira que junta mais de mais de 600 membros também exige uma resposta mais contundente às alegadas ações das autoridades israelitas: entre os subscritores de vários ramos da Academia, com preponderância para o dos Documentários, estão os atores Joaquin Phoenix, Javier Bardem, Penélope Cruz, Richard Gere, Olivia Colman, Emma Thompson, Sandra Oh, Mark Ruffalo, Sandra Hueller, Riz Ahmed, Maggie Gyllenhaal, Peter Sarsgaard, Elizabeth Olsen, Marisa Tomei, John Cusack, Susan Sarandon, Sam Worthington, e os realizadores Alfonso Cuaron, Ava DuVernay, Adam McKay, Jonathan Glazer, Jim Jarmusch, Todd Haynes e Errol Morris.
VEJA A CARTA ABERTA EM ATUALIZAÇÃO REGULAR.
"No Other Lan" conta a história do deslocamento forçado de palestinianos por tropas e colonos israelitas em Masafer Yatta - uma área que Israel declarou zona militar restrita na década de 1980. O filme está em cartaz no Cinema Ideal, em Lisboa, e disponível na plataforma Filmin.
Segundo ativistas em Susiya, no sul da Cisjordânia, colonos israelitas agrediram na segunda-feira Hamdan Ballal e este foi depois detido por militares israelitas numa ambulância e sob custódia, agrediram-no e gozaram por ter ganho o Óscar. A polícia israelita libertou-o no dia a seguir, acusando-o de "atirar pedras" durante um "violento confronto" entre israelitas e palestinianos, o que este desmente.
Na quarta-feira, Hamdan Ballal afirmou que sofreu uma "agressão brutal" por parte dos colonos pelo prémio que recebeu.
"Pensei que estava a viver os meus últimos momentos devido à violência dos golpes (...) Acredito que foi porque ganhei o Óscar", declarou à agência France-Presse (AFP).
Yuval Abraham, correalizador israelita do documentário, criticou a Academia pelo seu silêncio sobre o incidente.
"Infelizmente, a Academia que nos deu um Óscar há três semanas recusou-se a apoiar publicamente Hamdan Ballal enquanto era espancado e torturado por soldados e colonos israelitas", denunciou na rede social X (antigo Twitter), notando o contraste com o apoio da Academia Europeia e de “inúmeros outros grupos de prémios e festivais”.
E acrescentou: "Vários membros americanos da Academia — principalmente no ramo de documentários — pressionaram por uma declaração, mas acabou por ser rejeitada no fim. Disseram-nos que, como outros palestinianos foram espancados no ataque dos colonos, isso poderia ser considerado que não estava relacionado com o filme, portanto não sentiram necessidade de responder".
"Hamdan foi claramente" agredido "por ter realizado 'No Other Land'" e também "por ser palestiniano", notou.

Em comunicado na quarta-feira, Janet Yang e Bill Kramer, respetivamente presidente e presidente executivo, disseram que "a Academia condena prejudicar ou suprimir artistas pelo seu trabalho ou os seus pontos de vista. Estamos a viver num momento de profunda mudança, marcado por conflito e incerteza — em todo o mundo, nos EUA e dentro da nossa própria indústria. Compreensivelmente, somos frequentemente solicitados a falar em nome da Academia em resposta a eventos sociais, políticos e económicos. Nesses casos, é importante observar que a Academia representa cerca de 11 mil membros a nível global com muitos pontos de vista únicos.”
Foi uma mensagem "embaraçosa e vergonha", disseram ao Deadline vários membros da Academia do ramo dos documentários.
Já a nova carta aberta diz que "a declaração foi ostensivamente uma resposta à detenção (....), embora não tenha mencionado Ballal ou o filme pelo nome, nem tenha descrito os eventos aos quais estava a responder. A declaração de Bill Kramer e Janet Yang ficou muito aquém dos sentimentos que este momento exige".
"Condenamos o ataque brutal e a detenção ilegal do cineasta palestiniano vencedor do Óscar Hamdan Ballal por colonos e forças israelitas na Cisjordânia. Como artistas, dependemos da nossa capacidade de contar histórias sem represálias. Os documentaristas frequentemente expõem-se a riscos extremos para esclarecer o mundo. É indefensável para uma organização reconhecer um filme com um prémio na primeira semana de março e, em seguida, deixar de defender os seus cineastas apenas algumas semanas depois", diz o texto.
E acrescenta: "Ganhar um Óscar não é uma tarefa fácil. A maioria dos filmes em competição é impulsionada por ampla distribuição e campanhas com valores exorbitantes direcionadas aos membros votantes. O facto de 'No Other Land' ganhar um Óscar sem essas vantagens mostra o quão importante o filme é para os votantes. O ataque a Ballal não é apenas um ataque a um cineasta — é um ataque a todos aqueles que ousam testemunhar e contar verdades inconvenientes. Continuaremos a zelar por esta equipa de cinema. Ganhar um Óscar colocou as suas vidas num perigo cada vez maior, e não pouparemos nas palavras quando a segurança de outros artistas estiver em jogo."
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